Volta às aulas com saúde

Alguns pais relataram sentimentos distintos, muitos apontaram o “medo” de que seus filhos retornem à escola

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Estamos preparados para a volta das atividades escolares? Nessas últimas semanas recebi dezenas de mensagens de pais e mães com uma dúvida que está presente em todos os lares do Brasil: É seguro mandar as crianças de volta para as aulas?

Professores e profissionais da educação também demonstram muita preocupação. Por força das minhas atividades, participo de diversos grupos de WhatsApp e acompanho debates acalorados sobre esse tema.

Diante de um assunto tão polêmico, fui ouvir professores e profissionais que trabalham na educação, bem como estudantes e pais e mães de alunos. Alguns pais relataram sentimentos distintos, muitos apontaram o “medo” de que seus filhos retornem à escola e, com isso, causem a infecção dos avós; outros afirmaram que, com a nova fase de flexibilização, voltaram ao trabalho, e muitos estão tendo de arrumar um jeito para cuidar das crianças.

Da grande maioria dos profissionais da educação, ouvi relatos muito preocupantes. Para eles, as escolas ainda não estão preparadas para a volta ao trabalho, pois a falta de testes e de condições físicas das escolas colocam suas vidas em risco. Outro ponto que chamou minha atenção foi que muitos profissionais relataram a pressão que vêm sofrendo para que as aulas retornem logo.

Somado a esses dois cenários, temos de levar em conta que muitos alunos se alimentam nas escolas, e que uma parcela não possui acesso à internet e estão sem condições de estudar.

O que as pesquisas mostram
Depois dessas conversas, como médico, decidi estudar o assunto e ler as pesquisas científicas que foram feitas em diversas cidades sobre o retorno das atividades escolares.

Todas as pesquisas realizadas sobre a volta das atividades escolares relatam dificuldades em impedir o aumento de casos de infecção. A razão principal que esses estudos apontam é que não testamos nossas crianças; como promovemos o isolamento social logo no início da pandemia, ainda não temos dados para saber se as crianças se infectam, o potencial de transmissão das crianças, e como seria se um surto de coronavírus surgisse nas escolas.

Para complicar ainda mais, li uma pesquisa que mostrou que crianças a partir de nove anos de idade transmitem o vírus tanto quanto os adultos, e, por essa razão, os locais que decidiram voltar às aulas antes de controlar a pandemia ampliaram o número de casos.

Como essas pesquisas não iluminaram muito a busca pela resposta, decidi estudar os casos de sucesso de volta às aulas, ou seja, o que fez alguns países ser bem-sucedidos e evitar contaminações de alunos e professores?

Em termos gerais, esses bons exemplos só aderiram à volta às aulas depois que controlaram a transmissão do vírus e mantiveram as medidas de distanciamento social. Somado a essa característica, esses países criaram um bom sistema de testes e de rastreamento de contatos.

Outra ideia interessante adotada com sucesso: antes da volta às aulas, foram feitos inquéritos sorológicos com estudantes e profissionais de educação, com o objetivo de avaliar o porcentual de pessoas que já foram infectadas.

Depois desse inquérito, foi criado um plano de contingência que previa ampla testagem nas escolas, para, com isso, poder dar mais segurança aos professores, alunos e familiares.

Importante ser avaliado também o que uma pesquisa feita nos Estados Unidos comprovou: que crianças desempenham um papel importante na disseminação de doenças respiratórias em pandemias. Essa informação foi revelada por cientistas do Hospital Infantil de Cincinnati, no Estado americano de Ohio, para a revista científica Journal of the American Medical Association (Jama).

Segundo eles, as crianças são transmissoras de epidemias virais como a influenza, pois elas passam períodos longos em muita proximidade com outras crianças em escolas e durante atividades físicas.

O objeto de estudo desta pesquisa foi o fechamento de escolas em 50 Estados americanos entre março e maio. A conclusão é que, após o fechamento das escolas, houve uma queda, em média, de 62% no número de casos e 58% no número de mortos.

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As consequências da falta de aulas presenciais
Como médico, o que mais me preocupa com a volta às aulas é o fato de muitas crianças serem assintomáticas. Elas podem não estar apresentando sintomas da doença, e mesmo assim agindo como propagadoras do vírus.

Se, por um lado, o problema da infecção e proliferação do vírus no ambiente escolar preocupa, outros elementos também precisam ser levados em conta para a decisão da volta às aulas. Estudos revelam que a falta de aulas teria consequências graves para a saúde mental e desenvolvimento dos alunos.

No caso brasileiro, também podemos acrescentar que a falta de aulas agravará a desigualdade de oportunidades entre alunos, com crianças que vivem em situação econômica mais frágil, não conseguindo acompanhar aulas online.

Outra variável relevante a se considerar é o impacto econômico das escolas fechadas. Para cuidar de seus filhos, muitos pais não podem trabalhar, prejudicando a renda familiar. Tentei elencar uma gama de fatores que devem ser colocados no debate. Reabrir as escolas não é uma decisão simples. O importante é preparar as condições para que possamos garantir a saúde dos profissionais da educação, alunos e familiares. Para tanto, os primeiros passos devem ser: controlar a expansão do vírus; criar um amplo modelo de testagem e um bom sistema de rastreamento de contatos; e manter distanciamento social onde for possível, além de álcool gel e máscaras como parte da lista de material escolar. Sem essas condições iniciais, não existe reabertura segura.

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