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El Salvador: de território dominado pelo medo a uma nação em transformação

Sob a liderança de Nayib Bukele, o pequeno país da América Central registra uma mudança histórica na segurança pública, amplia investimentos em infraestrutura, educação e tecnologia e atrai a atenção internacional. Mas o avanço também desperta um debate sobre os limites do poder e o futuro da democracia.

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Um país que decidiu enfrentar seu passado

Durante décadas, El Salvador esteve associado a uma realidade marcada pela violência, pela atuação de organizações criminosas e por profundas dificuldades sociais. Localizado na América Central, entre Guatemala, Honduras e o Oceano Pacífico, o país de aproximadamente 6,3 milhões de habitantes conviveu com um problema que ultrapassa as estatísticas policiais: o medo fazia parte da rotina de milhares de famílias.

Em determinadas comunidades, gangues controlam territórios, impunham extorsão a comerciantes, restringiam a circulação de moradores e interferiam no funcionamento da economia local. Para muitos salvadorenhos, atividades comuns, como abrir um estabelecimento comercial ou atravessar determinados bairros, representavam riscos reais.

Foi nesse cenário que Nayib Bukele chegou à Presidência, em junho de 2019, prometendo romper com as estruturas políticas tradicionais e enfrentar a criminalidade.

Sua ascensão representou uma mudança importante no cenário político salvadorenho, historicamente dominado por partidos ligados às antigas forças da esquerda e da direita. Com uma comunicação direta, forte presença digital e discurso de renovação, Bukele conquistou amplo apoio popular.

Sete anos depois, El Salvador apresenta resultados expressivos na redução da violência e novas ambições econômicas. Ao mesmo tempo, a concentração de poder político e as denúncias de violações de direitos humanos colocam o país no centro de um debate internacional.

Segurança pública: a mudança mais visível

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A transformação da segurança é o principal símbolo da administração Bukele.

A partir de março de 2022, depois de uma onda de assassinatos, o governo estabeleceu um regime de exceção que ampliou os poderes das forças de segurança e restringiu determinadas garantias constitucionais. A medida permitiu operações de grande escala contra as gangues que dominam diferentes regiões do país.

A presença policial e militar foi intensificada, milhares de suspeitos foram presos e o governo construiu o Centro de Confinamento do Terrorismo, conhecido como CECOT, uma prisão de segurança máxima destinada a integrantes de organizações criminosas.

O resultado mais evidente foi a forte redução dos homicídios registrados oficialmente. Regiões antes marcadas pelo controle territorial de gangues passaram a apresentar uma circulação de pessoas e atividades comerciais que, durante anos, haviam sido limitadas pela violência.

Essa mudança também alterou a percepção de segurança de grande parte da população, ajudando a explicar a elevada popularidade do presidente.

Entretanto, organizações de direitos humanos questionam a manutenção prolongada do regime de exceção, relatando prisões arbitrárias, problemas no devido processo legal e denúncias de maus-tratos. A metodologia das estatísticas oficiais de homicídios também é objeto de questionamentos.

O desafio salvadorenho é preservar a redução da criminalidade enquanto garante mecanismos de fiscalização, justiça e proteção aos direitos individuais.

Da segurança à retomada econômica

A melhoria da segurança criou condições mais favoráveis para o funcionamento de negócios, a circulação de consumidores e a chegada de visitantes.

Segundo o Banco Mundial, o Produto Interno Bruto de El Salvador cresceu 2,6% em 2024. O relatório econômico divulgado em abril de 2026 apontou aceleração da atividade em 2025, impulsionada por investimentos, remessas enviadas por salvadorenhos residentes no exterior, construção civil e turismo.

INDICADORES ECONÔMICOS E SOCIAIS

6,36 mi
Habitantes em 2025

2,6%
Crescimento do PIB em 2024

US$ 35,4 bi
PIB nominal em 2024

27,2%
População em situação de pobreza, 2023

Fontes: Banco Mundial, indicadores populacionais, econômicos e de pobreza. Os anos variam conforme a disponibilidade de cada série.

Os avanços, contudo, não significam que os problemas econômicos estejam resolvidos. A pobreza, a qualidade dos empregos, a dependência de remessas internacionais e a sustentabilidade das contas públicas continuam entre os desafios estruturais do país.

Para consolidar sua transformação, El Salvador precisará converter a maior segurança em ganhos duradouros de produtividade, renda e oportunidades.

Educação: investir nas próximas gerações

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Uma das frentes do governo é a modernização do sistema educacional. Programas públicos incluem a recuperação de escolas, a distribuição de equipamentos tecnológicos e iniciativas de atenção à primeira infância.

No planejamento orçamentário de 2025, o Ministério da Educação apresentou investimentos em infraestrutura para melhorar 219 centros escolares, além de mobiliário para outras unidades. A proposta contemplava também formação e equipamentos. Esses números representam metas orçamentárias, não a comprovação de que todas as obras tenham sido concluídas. Assembleia Legislativa de El Salvador.

A estratégia procura aproximar o ensino público das exigências de uma economia cada vez mais digital. Computadores, tablets e conectividade podem ampliar o acesso a materiais didáticos, mas os resultados dependem igualmente da formação de professores, da qualidade pedagógica e da continuidade das políticas públicas.

Para El Salvador, a educação representa uma oportunidade de reduzir desigualdades históricas e preparar uma geração capaz de participar dos novos setores econômicos que o país deseja desenvolver.

Saúde pública e infraestrutura social

Na área da saúde, o governo anunciou investimentos em hospitais, centros de atendimento, equipamentos, medicamentos e programas voltados à primeira infância.

O orçamento de 2025 previa aproximadamente US$1,17 bilhão para o setor, incluindo iniciativas de fortalecimento da rede hospitalar e dos serviços de atenção primária.

A modernização da estrutura de atendimento pode contribuir para melhorar o acesso aos serviços, especialmente em regiões que historicamente enfrentam dificuldades de cobertura.

Entretanto, a existência de investimentos não comprova, isoladamente, a universalização do atendimento ou a melhoria de todos os indicadores de saúde. Esses resultados precisam ser acompanhados por dados de cobertura, qualidade assistencial e desfechos clínicos.

O mesmo princípio vale para saneamento, limpeza urbana, moradia e serviços comunitários. Obras e programas públicos podem melhorar as condições de vida, mas sua abrangência e seus efeitos precisam ser avaliados individualmente.

Tecnologia e inteligência artificial: o futuro como prioridade

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El Salvador também procura reposicionar sua imagem internacional como um país aberto à inovação tecnológica. Um dos projetos mais relevantes é a parceria entre o governo salvadorenho e o Google Cloud, anunciada em agosto de 2023.

O acordo, previsto para sete anos, envolve modernização de serviços públicos, digitalização de processos administrativos, soluções para a saúde e ferramentas educacionais. Em abril de 2024, o Google inaugurou escritórios em San Salvador, consolidando sua presença no país.

A iniciativa pretende reduzir burocracias e permitir que serviços públicos funcionem com maior integração de informações. Para cidadãos e empresas, processos digitais podem significar menos deslocamentos, maior agilidade e melhor acesso aos serviços.

Outra parceria de destaque envolve Elon Musk e sua empresa de inteligência artificial, xAI.

Em dezembro de 2025, o governo anunciou uma colaboração com a xAI para introduzir o Grok, sistema de inteligência artificial da empresa, na educação pública salvadorenha. A proposta prevê ferramentas de aprendizagem personalizadas para estudantes, com implantação gradual.

A parceria representa uma aposta na utilização da inteligência artificial em escala nacional. Seus resultados educacionais, entretanto, dependerão de avaliações independentes, preparação dos professores, proteção dos dados dos estudantes e qualidade do conteúdo apresentado.

Quais empresas e instituições estão envolvidas?

Além de Google e xAI, El Salvador mantém relações com organismos internacionais e instituições de financiamento que apoiam projetos de desenvolvimento.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento, por exemplo, aprovou em outubro de 2025 um financiamento de US$ 150 milhões para ampliar a cobertura e a qualidade da educação, com atenção especial a estudantes vulneráveis e pessoas com deficiência.

Quanto à HP, citada entre as possíveis apoiadoras, não foi possível confirmar nas fontes consultadas uma parceria estratégica recente equivalente às estabelecidas com Google Cloud e xAI. Por isso, seria inadequado apresentá-la como patrocinadora ou parceira oficial sem documentação adicional.

É importante distinguir investimentos privados, contratos comerciais, cooperação tecnológica e financiamentos multilaterais. Cada modalidade possui objetivos, custos e compromissos diferentes.

Infraestrutura, construção civil e uma nova imagem urbana

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A transformação salvadorenha também aparece em projetos urbanos e turísticos.

A modernização de espaços públicos, os investimentos em infraestrutura e a expansão da construção civil passaram a ocupar um papel importante na estratégia econômica do país.

A Biblioteca Nacional de El Salvador, conhecida como BINAES, tornou-se um dos símbolos arquitetônicos dessa fase. Sua estrutura moderna, localizada no centro histórico de San Salvador, representa a intenção de ampliar os espaços culturais e revitalizar áreas urbanas.

No litoral, o projeto Surf City procura desenvolver o potencial turístico das praias salvadorenhas, conhecidas internacionalmente pela prática do surfe.

A melhoria da segurança também contribuiu para tornar esses destinos mais acessíveis a visitantes e investidores.

A expansão imobiliária, contudo, precisa ser acompanhada por planejamento urbano, políticas habitacionais, serviços públicos e medidas para evitar que a valorização de determinadas regiões exclua moradores de menor renda.

Uma cidade modernizada depende tanto de novos edifícios quanto de transporte, saneamento, manutenção urbana e acesso aos serviços essenciais.

Popularidade e liderança: a relação entre Bukele e a população

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A elevada aprovação popular de Bukele está fortemente relacionada à percepção de segurança.

Para parte significativa dos salvadorenhos, o combate às gangues representa uma mudança concreta na vida cotidiana. A possibilidade de circular em determinados bairros, trabalhar sem extorsões e frequentar espaços públicos tornou-se um dos principais argumentos de apoio ao governo.

Sua comunicação política também desempenha papel relevante. Bukele utiliza redes sociais, anúncios diretos e uma identidade pública associada à modernização e à ruptura com antigas práticas partidárias.

Entretanto, popularidade e transparência institucional são aspectos diferentes da administração pública.

Organizações como a Human Rights Watch apontam preocupações com o enfraquecimento de mecanismos de controle do Executivo, restrições à atuação de críticos e problemas de acesso à informação pública.

Em julho de 2025, a Assembleia Legislativa aprovou mudanças constitucionais que permitem a reeleição presidencial indefinida, ampliam o mandato presidencial para seis anos e alteram regras eleitorais.

Para defensores da medida, cabe aos eleitores decidir sobre a continuidade de um governante. Para críticos, a alteração reduz os limites institucionais ao exercício do poder e pode comprometer a alternância democrática.

O debate permanece aberto: como preservar políticas públicas que apresentam resultados sem enfraquecer os mecanismos de fiscalização e equilíbrio entre os poderes?

O que outros países podem aprender com El Salvador?

A experiência salvadorenha oferece elementos importantes para o estudo de políticas públicas, sobretudo em segurança, modernização administrativa e atração de investimentos.

A recuperação de territórios anteriormente controlados por organizações criminosas, a digitalização de serviços e a priorização de infraestrutura educacional são temas que podem ser analisados por outros governos.

Mas a reprodução de políticas exige considerar diferenças constitucionais, sociais, econômicas e institucionais. Também é necessário avaliar custos, efeitos de longo prazo e impactos sobre os direitos da população.

Os resultados obtidos na redução da violência não eliminam a necessidade de examinar denúncias de abusos, assim como as críticas institucionais não apagam as mudanças vividas por comunidades que antes enfrentavam o domínio de gangues.

Uma transformação ainda em andamento

El Salvador ocupa hoje uma posição singular no debate latino-americano.

O país passou de uma realidade de violência extrema para um cenário de maior segurança, enquanto procura construir novas oportunidades em turismo, tecnologia, educação e investimentos.

A trajetória de Nayib Bukele tornou-se conhecida internacionalmente, atraindo tanto admiração por resultados concretos quanto questionamentos sobre os métodos empregados.

O futuro dessa transformação dependerá da capacidade de converter segurança em desenvolvimento econômico inclusivo, ampliar a qualidade dos serviços públicos e garantir instituições capazes de funcionar além de um único governo.

Para os salvadorenhos, a questão central é como transformar as mudanças recentes em melhorias permanentes na qualidade de vida.

A história de El Salvador continua sendo escrita. E seus próximos capítulos mostrarão como segurança, prosperidade, direitos e democracia poderão coexistir no futuro do país.